O Boom de Solidariedade durante a COVID-19 é real?

Se você é como a maioria das pessoas, provavelmente disse que sim. Será que é verdade?

Levantando os dados de doações em tempos de COVID-19

Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro entender o que é a atividade normal. E é ai que começa o problema.

O Brasil tem poucos e imprecisos dados sobre doação. Sabe aquele especialista que crava um número na televisão? Ou o que escreve um artigo cheio de dados? Não vou te dizer que ele está chutando, mas com certeza não está fazendo nada muito além de estabelecer um patamar.

Para você ter uma ideia, não há consenso nem sobre a quantidade de ONGs no país. Por diferença de critérios, o IPEA aponta 780 mil enquanto o IBGE dá conta de 230 mil. Não dá para dizer que é uma diferença pequena…

Voltando ao volume doado no país, os dados mais confiáveis se referem às doações privadas. Segundo a “Pesquisa Doação Brasil 2015” do IDIS, indivíduos doam 0,23% do PIB anualmente. Já o estudo “Ação Social das Empresas” do IPEA, de 2004, defende que pessoas jurídicas fazem doações totais de 0,27% do PIB por ano.

E durante a pandemia?

Nossa fonte para responder a essa pergunta é o Monitor das Doações, criado pela Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR). Apesar de pioneiro e valioso, o monitor foi mais eficiente em registrar doações empresariais. Como resultado, 85% dos repasse registrados são de empresas e apenas 5% de indivíduos.

Por isso, para comparar o volume “normal” de doações com o volume durante a pandemia da COVID-19, é mais correto considerarmos apenas os dados de empresas, que foram coletados com mais precisão.

Juntando os dados

Dividi o volume total que as empresas doaram no Brasil em 2019 pelo de semanas, para chegar ao valor médio semanal. Depois, extrai do Monitor das Doações o volume doado durante os primeiros 60 dias de pandemia (COVID-19). Este foi o resultado (dados em milhões):

Dados sobre doações durante pandemia do COVID-19
*Dados retirados do Monitor das Doações
**Projeção a partir da pesquisa Ação Social das Empresas (IPEA, 2004)

Antes de analisar a tabela, gostaria de colocar aqui algumas ressalvas:

  • O volume de doação das empresas ao longo do ano não é constante. Repasses via leis de incentivo são maiores no fim do ano e por editais, em agosto, outubro e fevereiro. Assim, o volume de doações de empresas em abril e maio, meses contemplados na tabela acima, são provavelmente menores do que os R$379 milhões imputados na coluna “normal”.
  • A estimativa de doação de empresas é feita sobre o PIB. O PIB de 2020 será menor do que o de 2019. Por esta ótica, possivelmente os R$379 da coluna “normal” são também uma projeção exagerada.
  • O Monitor das Doações registra o volume a partir de notícias e de sua rede de indivíduos e empresas. Não há um sistema central e automático como, por exemplo, o conhecido “Impostômetro”. Por isso, é natural que tenha deixado de registrar milhões – quem sabe até bilhões – de reais em doações de empresas. Por isso, é razoável supor que a coluna “Pandemia” esteja subnotificada.

Assim, segundo a análise da tabela é possível dizer que o Brasil viveu um boom de doações durante a pandemia?

SIM! A tabela aponta um aumento de 29% nas doações do período inicial da pandemia, sendo que provavelmente os registros estão incompletos e houve uma inflação do volume “normal”.

Mas você pode me perguntar: e depois destas nove semanas?

A partir da primeira semana de junho, infelizmente, houve uma queda no volume de doações. Para você ter uma ideia, os R$ 530 milhões em doações registrados em junho e julho foram praticamente 30% do 1,5 bilhão doado em APENAS UMA SEMANA durante a pandemia. Em outras palavras, parece que a partir de junho voltamos ao patamar “normal” de doações.

O que podemos aprender com isso?

Durante a pandemia muito se falou que o período poderia ser um ponto de inflexão definitivo na filantropia brasileira. Como se a Covid-19 tivesse por subproduto o aumento permanente da solidariedade do brasileiro.

Discordo disso como já discordava durante a pandemia.

É inegável, como visto acima, que doação foi um tema que entrou na pauta. A emergência despertou nas pessoas um sentido de solidariedade que se refletiu em alguns bilhões. Mas a grande missão daqueles que trabalham com cultura de doação começa no pós-pandemia.

A captação de recursos não vive de boom. Assim como é uma utopia uma organização social achar que vai mudar de patamar porque apareceu na Globo, é também uma ingenuidade acreditarmos numa mudança definitiva da filantropia brasileira por dois meses de atividade frenética.

O aumento das doações é, sim, uma grande oportunidade. As pessoas ficaram mais sensíveis e doaram. Entraram em contato com causas e organizações, o que é ótimo! Mas isso não permanecerá caso não seja feito um trabalho de longo prazo e maturação lenta para atrair e reter esses novos doadores.

O Brasil viveu um boom de doações durante a pandemia da Covid-19? Sim.

Ele mudou a filantropia brasileira? O tempo dirá.

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